A endometriose intestinal acontece quando focos de endometriose atingem a parede do intestino, na maioria das vezes a porção final do intestino grosso (reto e sigmoide). Os sintomas mais característicos são dor ao evacuar, alternância entre diarreia e prisão de ventre, distensão abdominal e piora clara de tudo isso no período menstrual.
O diagnóstico é feito com consulta detalhada, exame físico e exames de imagem realizados por radiologistas experientes em endometriose, principalmente a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética da pelve. O tratamento pode ser clínico ou cirúrgico e é decidido caso a caso, de preferência por uma equipe que reúne cirurgia, medicina da dor, fisioterapia pélvica e nutrição.
O que é a endometriose intestinal?
A endometriose é uma doença inflamatória crônica em que um tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero. Quando esse tecido infiltra a parede do intestino, falamos em endometriose intestinal, uma das formas de endometriose profunda. Revisões da literatura estimam que ela esteja presente em cerca de 5% a 12% das mulheres com endometriose, e o reto e o sigmoide são os segmentos mais acometidos. Apêndice, íleo terminal e ceco também podem ser atingidos, com menos frequência.
Na maioria dos casos, a lesão cresce de fora para dentro: começa na superfície externa do intestino e avança pelas camadas musculares, raramente chegando à mucosa, que é a camada interna. Esse detalhe explica por que a colonoscopia costuma ser normal mesmo quando existe um nódulo importante.
Quais são os sintomas da endometriose intestinal?
Os sintomas variam conforme o tamanho e a localização da lesão, e algumas mulheres não têm queixa intestinal nenhuma. Os mais comuns são:
- Dor ao evacuar (disquezia), principalmente durante a menstruação
- Alternância entre diarreia e prisão de ventre
- Distensão e inchaço abdominal, que pioram ao longo do ciclo
- Cólicas abdominais e sensação de evacuação incompleta
- Sangramento nas fezes no período menstrual, menos frequente
- Dor pélvica crônica, cólica menstrual intensa e dor na relação sexual, que costumam vir juntas
A pista mais importante é a relação com o ciclo menstrual. Sintomas intestinais que aparecem ou pioram muito na menstruação merecem investigação para endometriose.
Por que ela é confundida com síndrome do intestino irritável?
Os sintomas da endometriose intestinal se parecem muito com os da síndrome do intestino irritável: dor abdominal, inchaço e mudança no hábito intestinal. Por isso, muitas mulheres passam anos tratando apenas o intestino, sem que a endometriose seja considerada. Além disso, a inflamação pélvica crônica e a sensibilização do sistema nervoso podem provocar sintomas intestinais mesmo sem lesão na parede do intestino. Essa sobreposição é um dos motivos pelos quais a endometriose leva, em média, anos para ser diagnosticada, como mostramos no artigo sobre o diagnóstico tardio da endometriose.
Como é feito o diagnóstico?
A diretriz da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), atualizada em 2022, recomenda que os exames de imagem sejam usados no diagnóstico da endometriose e deixou de considerar a laparoscopia como etapa obrigatória para confirmar a doença. Na prática, a investigação segue estes passos:
- Consulta detalhada: história dos sintomas, relação com o ciclo, impacto na vida diária, desejo de gestação e funcionamento do intestino e da bexiga.
- Exame físico: o toque vaginal e, quando indicado, o toque retal podem identificar nódulos e pontos de dor.
- Ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal: permite mapear nódulos, medir sua profundidade e a distância até o ânus. O resultado depende muito da experiência de quem realiza o exame.
- Ressonância magnética da pelve com protocolo para endometriose: complementa o mapeamento, sobretudo em lesões altas ou múltiplas.
- Colonoscopia: tem papel limitado, mas pode ser útil para afastar outras doenças intestinais, conforme a idade e os sintomas.
Na EndometRIO, os exames são discutidos em reunião multidisciplinar com radiologistas especializadas, e a avaliação vai além do intestino: percorre dez dimensões da vida da paciente, da função urinária ao sono e à saúde emocional. Saiba mais sobre como avaliamos cada caso.
Quais são as opções de tratamento?
Ter endometriose no intestino não significa, obrigatoriamente, precisar de cirurgia. A decisão leva em conta os sintomas, o tamanho da lesão, o grau de estreitamento do intestino, a resposta ao tratamento clínico e o desejo de engravidar.
Tratamento clínico
O tratamento hormonal reduz a atividade da doença e controla os sintomas em muitas pacientes, e é a primeira opção em diversos casos, conforme as diretrizes da ESHRE e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Ele é combinado com tratamento da dor, fisioterapia pélvica para a contratura do assoalho pélvico e orientação nutricional para o funcionamento intestinal. Conheça os tratamentos da endometriose e da dor pélvica.
Tratamento cirúrgico
A cirurgia costuma ser considerada quando há obstrução ou estreitamento importante do intestino, quando os sintomas persistem apesar do tratamento clínico ou quando a medicação não é tolerada ou não é compatível com o desejo de gestação. As técnicas mais usadas são:
- Shaving: o nódulo é retirado da superfície do intestino sem abrir a parede.
- Ressecção discoide: retira-se um pequeno disco da parede intestinal que contém a lesão, com sutura em seguida.
- Ressecção segmentar: retira-se o trecho do intestino acometido e as extremidades são unidas, indicada em lesões maiores ou múltiplas.
A escolha da técnica depende das características de cada lesão. Toda cirurgia intestinal tem riscos, que devem ser discutidos com a equipe antes da decisão. A ESHRE recomenda que a endometriose profunda seja operada por equipes com experiência e em centros que possam envolver diferentes especialidades quando necessário. As cirurgias são feitas por videolaparoscopia ou por plataforma robótica, ambas minimamente invasivas. Veja como funciona o nosso programa cirúrgico multidisciplinar, com médica da dor na sala, fisioterapia pélvica na internação e checagem do funcionamento urinário e intestinal antes da alta.
Como é o acompanhamento depois do tratamento?
A endometriose é uma doença crônica e sistêmica, e o funcionamento do intestino pode levar algum tempo para se reorganizar depois da cirurgia. Por isso o acompanhamento não termina na alta. No aplicativo da EndometRIO, a paciente registra diariamente a dor, o ciclo e os sintomas, e a equipe acompanha a evolução entre as consultas, com apoio de inteligência artificial na análise dos registros. A alimentação também ajuda nesse processo; leia sobre a alimentação anti-inflamatória na endometriose.
Quando procurar avaliação?
Procure uma equipe especializada se você tem dor ao evacuar no período menstrual, mudanças no hábito intestinal que acompanham o ciclo, cólica que atrapalha a rotina ou já recebeu diagnóstico de endometriose e passou a ter sintomas intestinais. A EndometRIO atende em Icaraí, em Niterói, e em Ipanema, no Rio de Janeiro. Agende sua avaliação.
Perguntas frequentes
Endometriose intestinal aparece na colonoscopia?
Na maioria das vezes, não. A lesão costuma crescer de fora para dentro e raramente atinge a mucosa, que é a parte vista na colonoscopia. Os exames mais úteis são a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética da pelve, feitas por radiologistas experientes em endometriose.
Toda endometriose no intestino precisa de cirurgia?
Não. Muitas pacientes controlam os sintomas com tratamento hormonal, tratamento da dor, fisioterapia pélvica e ajustes na alimentação. A cirurgia é considerada em situações específicas, como obstrução intestinal ou sintomas que persistem apesar do tratamento clínico.
A cirurgia de endometriose intestinal exige bolsa de colostomia?
Na maioria das cirurgias não é necessária. Em algumas ressecções mais baixas, a equipe pode indicar uma ostomia temporária para proteger a sutura do intestino. Essa possibilidade deve ser conversada antes da cirurgia, de acordo com o caso.
Endometriose intestinal impede de engravidar?
Não necessariamente. Muitas mulheres com endometriose intestinal engravidam. Quando há dificuldade, a estratégia é individual e considera idade, reserva ovariana, localização da doença e o desejo do casal.
Qual a diferença entre endometriose intestinal e síndrome do intestino irritável?
Os sintomas são parecidos, mas na endometriose eles costumam piorar claramente no período menstrual e vêm acompanhados de cólica intensa, dor pélvica ou dor na relação. Só a avaliação médica com exames de imagem adequados permite diferenciar as duas condições, que também podem coexistir.
Referências: Becker CM et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open, 2022; FEBRASGO, Protocolo Febrasgo de Endometriose; Habib N et al. Bowel endometriosis: current perspectives on diagnosis and treatment. Int J Womens Health, 2020.
Ele não substitui a avaliação médica. Se você se identificou com os sintomas, procure atendimento especializado.